/ NoticiasJúlia (3), Iara (4), João Lucas (6) e Bruna (13). Quatro crianças com quatro histórias diferentes de vida. O ponto de semelhança nas histórias delas é que todas foram adotadas por um jovem casal natalense, a empresária Andréa de Souza Galliza e o bancário Marcos Félix Mitchell de Morais. As crianças foram abandonadas pelos pais biológicos e estavam disponíveis para adoção. Júlia foi adotada ainda enquanto estava na barriga da mãe, indo para os braços de sua mãe adotiva ainda bebê.
Os pais de Iara eram usuários de drogas e a menina morava em um abrigo de menores. "Por ser moreninha, três casais interessados em adoção não quiseram a menina por causa da cor da pele", lembra Andréa. João Lucas sofreu maus tratos quando vivia com os pais biológicos. "Bruna já estava crescidinha vivendo no orfanato Lírio do Vale [em Macaíba] e ninguém a queria mais".
Não foi por acaso que as quatro crianças foram adotadas pelo mesmo casal. Entre 2007 e 2008 Andréia e Marcos foram conhecendo a história de cada uma. "Cada um teve uma história, mas nos apaixonamos por todos eles. São nossos filhos". O jovem casal conheceu abrigos, se inscreveu num cadastro de adoção, foram consultados por psicólogos e assistentes sociais. Tudo como manda a lei de adoção, tanto a antiga (vigente na época) quanto a atual. "Não tem um porque. Nada foi planejado, foi acontecendo", relata a mãe, em cujo perfil no Twitter se descreve como "mãe de quatro filhos lindos e apaixonada pela causa da adoção".
Andrea conta que o sonho é antigo, surgiu de um programa de televisão, o Caso Verdade, exibido nos anos 1980. "Tinha menos de 10 anos de idade. Era fascinada pela atitude de uma família que havia adotado uma menina, depois encontraram os dois irmãos dela e também os adotaram. Depois que casei passamos a ter também essa pretensão de adotar depois do primeiro filho legítimo, mas ele não veio logo e a primeira oportunidade surgiu quando encontramos João Lucas, o primeiro de coração. Não me arrependo de ter adotado nenhum deles. Se Deus quiser outros virão. Caso não possamos adotá-los, procuraremos quem possa adotá-los".
Preferência se mantém: meninas brancas de até 4 anos
O perfil ideal das famílias que buscam uma criança para adotar se mantém há anos. Normalmente os casais procuram meninas, brancas e loiras, com até 4 anos de idade. A maior rejeição é aos meninos, negros e os que tem alguma deficiência física e mental. "Isso é um reflexo inegável de preconceito racial. Mas aos poucos essa mentalidade vem mudando, graças às ações de incentivo à adoção tomadas por ONG's e pelo Poder Judiciário", conta o juiz da infância Sérgio Maia.
Grupos de irmãos também são difíceis de se encontrar doadores. A lei da adoção em vigor atualmente "tem o espírito de não se fazer a divisão no seio familiar", ou seja, determina que irmãos abandonados sejam adotados por uma mesma família. "A lei coloca isso como preponderante, mas não obrigatório. No entanto, entre eternizar dois ou três irmãos até que eles completem 18 anos e não sejam adotados, e optar por dividi-los, eu sou favorável à divisão.
Mesmo que isso traga certa lesão afetiva e emocional, observo como interesse superior da criança que ela tenha uma família. Isso está previsto na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente. Melhor que ele seja adotado sem o seu irmão do que terem ambos um futuro incerto", defende o juiz.
Normalmente as crianças disponíveis para adoção são entregues voluntariamente na Vara da Infância e Juventude. Ao fazer essa atitude, a mãe ou o pai da criança não recebe qualquer represália da justiça. Pelo contrário, garante Sérgio Maia. "Isto representa um gesto de solidariedade, um gesto de carinho e de amor com a criança". Após acolhida, a criança é enviada a alguma instituição acolhedora temporariamente. "Nessa fase fazemos a averiguação se sé aquilo mesmo que a família quer, se não há, na família estendida (que inclui tios e primos), alguém interessado na guarda da criança, enfim. Informamos que a doação é irreversível".
Passada essa fase, começa a busca por pessoas que queiram receber a criança. Outra forma de chegada à fila de adoção é através da destituição, um processo em que a mãe ou pai perdemo filho por força de alguma ação judicial. "É o caso de maus-tratos, abandono, violência física ou sexual, crianças mantidas em cárcere privado. Enfim, essa forma se baseia em denúncias, e o Ministério Público promove uma Ação Cível de Destituição de Poder Familiar", descreve Sérgio Maia.
"Só querem recém-nascidos"
O relato da família numerosa de Andréa Galliza demonstra um sentimento compartilhado por outras 112 famílias de Natal. Todas estão cadastradas no banco de dados da Vara da Infância e Juventude da Comarca da capital, em busca de uma criança para adotar. Natal tem 34 crianças na lista de espera por um lar, a mais nova tem 4 anos e o mais velho tem 17. Teoricamente a procura é maior do que a oferta. Contudo, a solução da equação não é tão simples. A maior parte das crianças disponíveis para adoção não se enquadra no perfil ideal buscado por essas famílias. "Todas estão aptas, mas infelizmente as chances são poucas. Os brasileiros só querem adotar crianças recém-nascidas", constata o juiz Sérgio Maia, da 2ª Vara da Infância.
Os motivos para a rejeição são vários: alguma deficiência física ou mental, idade entre 10 e 12 anos (a rejeição começa por volta dos 6 anos de idade), existência de problemas de saúde como o vírus HIV (que provoca a AIDS), ou simplesmente não se enquadram no perfil de criança "desejável" pelos pais. Isto é, são meninos, negros e não recém-nascidos.Das crianças que conseguem adoção, entre a entrega para adoção por parte da mãe ou pai biológicos e a chegada ao novo lar, o tempo médio de preparação da papelada, atendimento psicológico e social da família dura em média 4 meses. A nova lei da adoção (nº 12.010), aprovada em 2009, traz algumas novidades sobre as regras para os casais que querem adotar filhos. Uma delas é que as crianças só podem permanecer até dois anos em casas de acolhimento.
"O Judiciário tem que fazer todos os esforços para buscar famílias para essas crianças em até dois anos, conforme determina a legislação. Quando ultrapassa esse prazo, preenchemos uma Guia de Acolhimento justificando a excepcionalidade do caso. Ou seja, justificamos que elas não foram adotadas porque não encontramos família para adotá-las", explicou o juiz. O mais desolador no que se refere à adoção é que se não aparecer nenhuma família interessada até que o adolescente complete 18 anos, ele terá que sair de abrigos para menores. "Se não houver nenhuma ONG interessada ou local para essa pessoa ir, terá que ir para a rua. O Judiciário observa isso com tristeza, mas é o que ocorre. Infelizmente os brasileiros só querem adotar recém-nascidos".
Burocracia
O caso da adoção das quatro crianças pelo casal Andréa Galliza e Marcos Félix durou um ínterim de dois anos, contando-se do primeiro ao último filho. A burocracia alegada pela maioria das famílias que buscam a adoção e que se negam a fazer o cadastro na fila de interessados é considerado pelo juiz Sérgio Maia como fator secundário. "Não é uma burocracia que pretende emperrar os trâmites da adoção, mas um procedimento sério que busca evitar adoções frustradas".Sérgio Maia justificou o tempo médio de espera fazendo uma comparação. "Uma mãe passa nove meses com o filho na barriga antes de dar a luz. Não pode achar muito tempo aguardar quatro ou cinco meses", disse.
Fonte: DN Online